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Dor cervical: causas, sintomas e tratamentos

Por que o pescoço dói, quando a dor desce para o braço e o que realmente resolve.

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O que é dor cervical

Dor cervical, ou cervicalgia, é a dor localizada na região do pescoço, entre a base do crânio e os ombros. Ela pode ficar restrita ali, subir para a nuca e a cabeça, abrir para o trapézio ou descer pelo braço até os dedos.

O sintoma é comum a ponto de ser quase universal. Estimativas populacionais indicam que entre 30% e 50% dos adultos sentem dor no pescoço ao longo de um ano, e a Global Burden of Disease coloca a dor cervical entre as principais causas de anos vividos com incapacidade no mundo, com mais de 200 milhões de pessoas afetadas.

Como acontece na lombar, a maioria dos casos é classificada como dor cervical mecânica: relacionada a músculos, articulações e discos, sem que se consiga apontar uma única estrutura responsável. Esse grupo responde bem a tratamento conservador.

Por que o pescoço é uma região sensível

São sete vértebras pequenas sustentando uma cabeça de quatro a cinco quilos e permitindo um dos maiores arcos de movimento do corpo. Você gira, inclina, flexiona e estende o pescoço centenas de vezes por dia sem pensar.

Para isso funcionar, a coluna cervical abre mão de robustez. As vértebras são leves, os discos são finos, e a estabilidade depende de músculos que precisam trabalhar quase o tempo todo. Passe duas horas com o queixo projetado à frente lendo o celular e esses músculos vão acumular fadiga.

Outro detalhe anatômico explica muita coisa: os nervos que saem da coluna cervical comandam ombro, braço, antebraço e mão. Quando uma raiz é irritada, o sintoma aparece longe do pescoço, e não é raro a pessoa chegar ao consultório reclamando de formigamento nos dedos sem associar isso à coluna.

As causas mais comuns

Sobrecarga muscular e postural

O cenário mais frequente. Longas jornadas em telas, monitor abaixo da linha dos olhos, mochila pesada de um lado só, noites mal dormidas, períodos de estresse alto. A dor costuma ser em peso, bilateral ou de um lado, com pontos endurecidos no trapézio e piora no fim do dia.

Torcicolo agudo

Você acorda e não consegue virar a cabeça para um dos lados. Dói forte, assusta, e quase sempre melhora em dias. Envolve espasmo muscular e irritação das articulações facetárias cervicais.

Hérnia de disco cervical

O disco empurra material para fora e pode tocar uma raiz nervosa, causando radiculopatia. O estudo populacional de Rochester, publicado no Brain em 1994, encontrou incidência de cerca de 83 casos por 100 mil pessoas ao ano, com pico entre 50 e 54 anos. A raiz C7 foi a mais atingida, em torno de 60% dos casos, seguida da C6.

Artrose e alterações degenerativas

Com os anos, discos perdem altura e surgem osteófitos, os bicos de papagaio. Isso pode estreitar o forame por onde o nervo passa e gerar dor irradiada, ou apenas dor local com rigidez matinal e limitação de movimento.

Lesão em chicote

Colisões de trânsito, mesmo em baixa velocidade, produzem uma aceleração brusca da cabeça sobre o pescoço. A dor costuma aparecer horas depois do acidente e vem com rigidez, dor de cabeça e às vezes tontura.

Mielopatia cervical

O estreitamento chega a comprimir a medula, e não apenas a raiz. É a causa menos comum desta lista e a mais séria, com sintomas descritos mais adiante.

Como a dor se manifesta

O padrão mecânico típico varia com a posição e o uso: piora ao final de um dia de computador, ao dirigir por muito tempo, ao dormir em posição desconfortável. Melhora com calor, movimento leve e mudança de atividade.

Quando existe raiz nervosa envolvida, o relato muda. A dor desce pelo braço num trajeto reconhecível, em faixa, com queimação ou choque. Costuma vir com formigamento em dedos específicos e piora ao estender o pescoço ou inclinar a cabeça para o lado da dor. Muita gente descobre sozinha que colocar a mão sobre a cabeça alivia, um sinal clássico de compressão radicular.

Dor de cabeça que começa na nuca e sobe até a região atrás dos olhos pode ter origem cervical, sobretudo quando piora com o movimento do pescoço e vem acompanhada de rigidez.

Sinais de alerta

A grande maioria das dores cervicais é benigna. Alguns achados, porém, mudam a urgência:

  • perda de destreza nas mãos, letra que piorou, dificuldade para abotoar camisa, objetos que escapam dos dedos;
  • alteração de equilíbrio, marcha insegura, sensação de andar como se estivesse bêbado;
  • fraqueza no braço que progride ao longo de dias, com dificuldade de levantar o braço ou de fazer força na mão;
  • dor após acidente, queda ou trauma craniano;
  • febre com rigidez de nuca, perda de peso sem explicação, história prévia de câncer, ou dor intensa que não alivia em nenhuma posição e acorda você de madrugada.

Os dois primeiros itens sugerem mielopatia cervical, situação em que a medula está sendo comprimida. O quadro tende a evoluir em degraus e a avaliação com neurocirurgião ou ortopedista de coluna não deve ser adiada.

Como se investiga

A consulta bem-feita resolve a maior parte. O médico examina movimento, força, reflexos e sensibilidade, aplica manobras como o teste de Spurling e, com isso, já consegue separar dor mecânica de radiculopatia.

Raio-X mostra alinhamento, altura dos discos e osteófitos, mas não mostra nervos. Ressonância é o exame que enxerga disco, raiz e medula, e fica reservada para casos com déficit neurológico, suspeita de mielopatia, sinais de alerta ou dor que não cede após semanas de tratamento adequado. Eletroneuromiografia ajuda quando há dúvida entre compressão na coluna e problema no nervo periférico, como a síndrome do túnel do carpo.

Um dado ajuda a colocar o laudo em perspectiva. Um estudo japonês publicado na Spine em 2015 fez ressonância cervical em 1.211 voluntários sem sintoma nenhum e encontrou abaulamento discal em cerca de 87% deles. Alteração na imagem, sozinha, não explica dor.

Tratamentos que funcionam

Movimento continua sendo a base. Manter o pescoço se movendo dentro do que a dor permite acelera a recuperação em praticamente todos os quadros mecânicos, inclusive depois de lesão em chicote.

Exercício supervisionado tem a melhor evidência disponível. A revisão Cochrane sobre exercícios para disfunções mecânicas do pescoço encontrou benefício em dor e função com treino específico de fortalecimento cervical e escapular. As diretrizes do JOSPT recomendam combinar exercício com terapia manual, porque a soma rende mais que cada uma isolada.

Medicação entra como suporte. Anti-inflamatórios reduzem dor na fase aguda e relaxantes musculares podem ajudar no espasmo, sempre com indicação médica que considere seu histórico. Em radiculopatia com dor intensa, o médico pode discutir corticoide por curto período ou infiltração guiada por imagem, opções com alívio real em parte dos casos e que não substituem a reabilitação.

Calor local, respiração e ajuste da carga de trabalho ajudam mais do que costumam receber crédito. Sono ruim e estresse aumentam a dor cervical de forma mensurável.

Cirurgia tem indicação em minoria: fraqueza motora progressiva, mielopatia com repercussão funcional ou dor radicular incapacitante que não respondeu a alguns meses de tratamento conservador bem conduzido.

No dia a dia

A regra que mais rende não tem nada de sofisticado: troque de posição com frequência. Nenhuma postura é ruim por si só, mas qualquer postura mantida por duas horas seguidas incomoda. Coloque o monitor de forma que a linha superior da tela fique na altura dos olhos, apoie os antebraços na mesa e levante para caminhar a cada meia hora.

Se você trabalha muito ao telefone, use fone de ouvido em vez de prender o aparelho entre a orelha e o ombro. Se carrega mochila ou bolsa pesada, alterne o lado.

Na fase de dor aguda, calor local por quinze ou vinte minutos costuma soltar a musculatura o suficiente para você conseguir se movimentar. Movimentos lentos de rotação e inclinação, feitos várias vezes ao dia dentro do limite do desconforto, ajudam a recuperar amplitude.

E cuide do sono. Estudos de acompanhamento mostram associação consistente entre noites mal dormidas e dor cervical mais intensa no dia seguinte, num ciclo que se retroalimenta: a dor atrapalha o sono, e o sono ruim amplifica a dor.

O que não ajuda

  • Colar cervical por semanas: imobilizar prolonga o quadro e enfraquece a musculatura. Em lesão em chicote, manter atividade produz melhor resultado.
  • Ressonância na primeira semana de dor sem sinais de alerta: encontra alterações presentes em quem não tem dor e costuma aumentar a ansiedade sem mudar o tratamento.
  • Manipulação cervical de alta velocidade sem avaliação prévia: além do benefício modesto, existe risco raro de complicação vascular, o que torna a avaliação obrigatória antes.
  • Repouso e afastamento total das atividades: em dor cervical mecânica, isso atrasa a recuperação.
  • Comprar cadeira, travesseiro ou suporte novo esperando resolver o problema: mudar de posição com frequência tem mais efeito que qualquer equipamento específico.
  • Culpar o celular por tudo: a associação entre uso de tela e dor cervical existe, mas os estudos não sustentam a ideia de que o chamado text neck deforme a coluna. O tempo parado na mesma posição pesa mais que o ângulo do pescoço.

O que esperar

Dor cervical mecânica aguda costuma melhorar bastante em duas a seis semanas. Radiculopatia cervical leva mais tempo, com melhora significativa em até três meses na maioria dos casos, sem cirurgia. Recorrências são comuns e não indicam piora estrutural.

Procure avaliação se a dor durar mais de seis semanas sem qualquer melhora, se surgir fraqueza no braço, ou se aparecer alteração de equilíbrio ou de destreza nas mãos.

Perguntas frequentes

Retificação da lordose cervical no laudo é grave?

Costuma ser um achado sem gravidade. A retificação significa que a curva natural do pescoço está mais reta que o habitual, o que pode acontecer por contratura muscular no momento do exame, por variação individual ou simplesmente pela posição em que você foi posicionado no aparelho. Ela aparece também em pessoas sem dor nenhuma e, isolada, não indica tratamento específico.

Dor cervical pode causar tontura?

Pode. Existe um quadro chamado tontura cervicogênica, em que a alteração de tensão e de informação sensorial do pescoço confunde o sistema de equilíbrio. A tontura costuma ser de desequilíbrio ou flutuação, ligada ao movimento do pescoço, e não uma vertigem rotatória intensa. Como labirintite, alterações de pressão e problemas neurológicos causam sintomas parecidos, o diagnóstico é de exclusão e precisa de avaliação médica.

Travesseiro errado causa dor no pescoço?

Um travesseiro muito alto ou muito baixo pode deixar você acordar com o pescoço rígido, mas não é a causa de uma dor cervical persistente. A regra prática é simples: quem dorme de lado precisa preencher o espaço entre o ombro e a cabeça, quem dorme de barriga para cima precisa de algo mais baixo. Se a dor persiste há semanas, o travesseiro provavelmente não é o problema principal.

Quanto tempo demora para melhorar uma dor cervical com formigamento no braço?

A maior parte das radiculopatias cervicais melhora sem cirurgia. Estudos de acompanhamento mostram melhora importante em até três meses na maioria dos casos, com alívio da dor no braço antes da recuperação completa do formigamento. Fraqueza que piora com o passar dos dias é a exceção que muda esse plano e precisa de reavaliação rápida.

Preciso usar colar cervical?

Na maior parte dos casos, não. Depois de traumas leves, como colisões de trânsito de baixa velocidade, manter o pescoço em movimento produz melhor recuperação que imobilizar. O colar pode ter uso pontual e por poucos dias em situações específicas definidas pelo médico, mas o uso prolongado enfraquece a musculatura e prolonga o quadro.

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Referências

  1. Neck Pain: Revision 2017. Clinical Practice Guidelines. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy, 2017.
  2. Epidemiology, Diagnosis, and Treatment of Neck Pain. Mayo Clinic Proceedings, 2015.
  3. Epidemiology of cervical radiculopathy: a population-based study from Rochester, Minnesota. Brain, 1994.
  4. Abnormal findings on magnetic resonance images of the cervical spines in 1211 asymptomatic subjects. Spine, 2015.
  5. Exercises for mechanical neck disorders. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2015.
  6. An evidence-based clinical guideline for the diagnosis and treatment of cervical radiculopathy from degenerative disorders. North American Spine Society, The Spine Journal, 2011.
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