Dor ciática: o que é, sintomas e quanto tempo dura
A dor que desce pela perna, por que ela aparece e em quanto tempo costuma passar.
Revisado em Como produzimos o conteúdo
O que é dor ciática
Ciática é o nome popular de uma dor que sai da região lombar ou do glúteo e desce pela perna, seguindo o trajeto do nervo ciático. Não é uma doença. É um sintoma, e ele avisa que uma raiz nervosa está sendo irritada em algum ponto perto da coluna.
O termo técnico é radiculopatia lombossacra. A distinção importa porque muita dor no glúteo e na coxa recebe o rótulo de ciática sem ser: dor referida de articulação facetária ou da sacroilíaca também espalha para a nádega, e nem por isso envolve nervo comprimido.
Estimativas populacionais variam bastante conforme a definição usada, mas a maioria dos estudos coloca a prevalência ao longo da vida entre 13% e 40%. É comum, portanto. E na maioria das vezes passa.
O trajeto que explica os sintomas
O nervo ciático é o maior do corpo. Ele se forma a partir das raízes L4, L5, S1, S2 e S3, atravessa o glúteo por baixo do músculo piriforme, desce pela face posterior da coxa e, atrás do joelho, se divide em dois ramos que vão até o pé.
Como as raízes carregam informação de territórios diferentes, o local exato da dor dá pistas de onde está o problema. Compressão da raiz L5 tende a produzir dor pela lateral da perna até o dorso do pé e o dedão, com fraqueza para levantar o pé. Compressão de S1 costuma descer pela panturrilha até a sola e o dedo mínimo, com dificuldade para ficar na ponta do pé e reflexo do tendão de aquiles diminuído.
Um detalhe que confunde muita gente: a dor na perna não significa que a perna esteja doente. O problema está na saída do nervo, perto da coluna. Massagear a panturrilha alivia pouco justamente por isso.
O que causa a ciática
Hérnia de disco lombar
Responde por aproximadamente 90% dos casos. O material do disco escapa e encosta na raiz nervosa. Só que a compressão mecânica é parte da história: o núcleo do disco desencadeia uma reação inflamatória local, e é essa inflamação que explica a dor intensa dos primeiros dias. Os níveis L4-L5 e L5-S1 concentram a maioria das hérnias sintomáticas.
Estreitamento do forame
Com a degeneração do disco e a artrose das facetas, o buraco por onde a raiz sai da coluna diminui. A dor tende a ser mais arrastada e a piorar quando você fica em pé ou estende a coluna para trás.
Estenose do canal lombar
O canal como um todo estreita e comprime várias raízes. O sintoma característico é diferente: dor, peso ou formigamento nas duas pernas ao caminhar, que melhora ao sentar ou ao inclinar o tronco para frente. Costuma aparecer depois dos sessenta anos.
Espondilolistese
Uma vértebra escorrega sobre a de baixo e reduz o espaço da raiz.
Síndrome do piriforme e outros imitadores
Quando o músculo piriforme irrita o nervo já fora da coluna. É bem menos comum do que a popularidade do termo sugere. Também imitam ciática a bursite trocantérica, a dor da articulação sacroilíaca, problemas do quadril e a claudicação de origem vascular.
Causas incomuns
Infecção, tumor, hematoma e cistos sinoviais representam uma fração pequena, mas são a razão pela qual os sinais de alerta existem.
Como reconhecer
A ciática típica tem características que a diferenciam de uma dor lombar comum:
- a dor desce abaixo do joelho e segue uma faixa reconhecível, não uma área vaga;
- a qualidade é de choque, queimação ou fisgada, muitas vezes mais intensa na perna do que nas costas;
- vem acompanhada de formigamento, dormência ou sensação de peso num território específico;
- tossir, espirrar ou fazer força no banheiro aumenta a dor de forma imediata;
- ficar sentado por muito tempo costuma piorar, e levantar traz alívio parcial.
No exame, o médico usa manobras como a elevação da perna estendida, que reproduz a dor entre 30 e 70 graus quando há irritação radicular, e testa força, sensibilidade e reflexos para identificar qual raiz está envolvida.
Sinais de alerta
Procure atendimento de urgência se aparecer dormência na região que encostaria no selim de uma bicicleta, dificuldade para iniciar ou segurar o xixi, perda de controle das fezes, ou fraqueza nas duas pernas. Essa combinação caracteriza a síndrome da cauda equina, uma emergência cirúrgica em que cada hora conta.
Avaliação sem demora também vale para fraqueza que piora de um dia para o outro, pé que começa a arrastar no chão, febre associada à dor, perda de peso sem explicação ou história prévia de câncer.
Como se investiga
Na ciática sem sinais de alerta e com menos de seis semanas, a recomendação do NICE é não pedir imagem de rotina. O exame clínico já define o diagnóstico e o tratamento inicial não muda com o resultado da ressonância.
A ressonância entra quando existe déficit neurológico relevante, suspeita de causa grave, sintomas que persistem apesar de tratamento adequado ou quando a cirurgia está sendo considerada. Nesses casos o exame é o que permite confirmar qual raiz está comprometida e por qual estrutura.
Vale saber ler o laudo com calma. Hérnias e protrusões aparecem em ressonâncias de pessoas sem dor nenhuma com muita frequência. O que dá sentido ao achado é a correspondência entre o nível encontrado na imagem e o território dos seus sintomas.
Quanto tempo dura
Esta é a pergunta que mais aparece, e a resposta tem números razoavelmente consistentes na literatura.
Cerca de metade das pessoas melhora bastante nas primeiras seis semanas. Em torno de 75% estão significativamente melhores em três meses. Uma parcela de 20% a 30% segue com sintomas depois de um ano, em geral mais brandos que no início.
A hérnia em si também muda com o tempo. A revisão sistemática publicada na Clinical Rehabilitation em 2015 encontrou regressão espontânea em cerca de dois terços dos casos, com taxas ainda maiores nas hérnias extrusas e sequestradas, aquelas que parecem piores no laudo. O corpo reabsorve o material herniado.
O que ajuda no tratamento
Manter-se ativo dentro do tolerável continua sendo a base. Ficar deitado esperando passar não acelera nada e piora a rigidez.
Analgesia adequada nos primeiros dias existe para permitir que você se mexa. Anti-inflamatórios não esteroidais são a opção mais usada, com efeito modesto segundo a revisão Cochrane sobre o tema. O NICE recomenda explicitamente não usar gabapentina, pregabalina, antiepilépticos ou corticoide oral para ciática, porque os estudos não mostraram benefício que justifique os efeitos adversos. A escolha e a dose são decisão médica.
Fisioterapia com exercício progressivo é o pilar do tratamento a partir da fase inicial. O foco é recuperar mobilidade, condicionamento e tolerância às atividades, e não uma técnica milagrosa.
Infiltração peridural guiada por imagem pode ser discutida na dor radicular aguda e intensa. Ela oferece alívio de curto prazo em parte dos pacientes e não muda o desfecho de longo prazo, o que ainda assim é útil quando a dor está impedindo qualquer reabilitação.
Cirurgia, geralmente microdiscectomia, entra em cauda equina, fraqueza progressiva ou dor persistente e incapacitante depois de seis a doze semanas de tratamento conservador. O estudo holandês publicado no New England Journal of Medicine em 2007 mostrou o essencial: operar cedo acelera o alívio, mas ao final de um ano os grupos operado e não operado tiveram resultados equivalentes. A cirurgia compra tempo, não um resultado superior.
O que não funciona
- Repouso na cama por vários dias: as revisões mostram resultado pior que manter-se ativo, com mais dor e retorno mais lento à rotina.
- Tração lombar: sem benefício demonstrado para ciática.
- Alongar agressivamente o nervo na fase aguda: forçar o alongamento de isquiotibiais quando a raiz está inflamada costuma aumentar a dor.
- Pedir ressonância na primeira semana sem sinais de alerta: não muda a conduta e revela achados que existem também em quem não tem sintoma.
- Colete lombar de uso contínuo: sem evidência de benefício e com custo de perda de condicionamento.
- Buscar cirurgia pelo tamanho da hérnia no laudo: hérnias grandes têm taxa maior de reabsorção espontânea, e a decisão se apoia na evolução clínica.
No dia a dia
Sentar por longos períodos costuma ser o pior gesto na fase aguda, porque aumenta a pressão sobre o disco. Se você trabalha sentado, levante a cada vinte ou trinta minutos, mesmo que por um minuto.
Para dirigir, recline o encosto alguns graus e use um apoio na lombar. Para levantar da cama, role de lado primeiro, deixe as pernas caírem para fora e empurre o tronco com os braços.
Aplicar calor na lombar e no glúteo relaxa a musculatura secundariamente contraída. Gelo ajuda algumas pessoas nos primeiros dias.
E registre a evolução: anote a distância que você consegue caminhar e até onde a dor desce na perna. Dor que vai subindo de volta em direção à lombar, mesmo com a lombar doendo mais, geralmente indica que a raiz está melhorando. Esse fenômeno tem nome, centralização, e é um dos poucos sinais que se pode acompanhar em casa com alguma confiança.
Perguntas frequentes
Quanto tempo dura uma crise de dor ciática?
Cerca de metade das pessoas melhora de forma importante nas primeiras seis semanas e algo em torno de 75% está bem melhor em três meses. Uma parcela menor, perto de 20% a 30%, ainda sente sintomas depois de um ano, geralmente mais leves. A dor na perna costuma ceder antes do formigamento, que pode demorar mais para sumir por completo.
Dor ciática é sempre hérnia de disco?
Não, mas na maioria das vezes é. A hérnia de disco lombar responde por cerca de 90% dos casos de ciática verdadeira. O restante vem de estreitamento do forame por artrose, estenose do canal lombar, escorregamento de vértebra e, com menos frequência, causas fora da coluna. O exame clínico separa esses cenários melhor do que a suposição.
Posso caminhar com dor ciática?
Pode e deve, dentro do que a dor permitir. Caminhadas curtas e frequentes costumam ser mais bem toleradas do que uma caminhada longa. Se a dor na perna aumentar muito durante o esforço e demorar horas para voltar ao patamar anterior, reduza a distância e aumente a frequência em vez de parar completamente.
Qual a melhor posição para dormir com dor ciática?
A que doer menos, e isso varia. De lado com um travesseiro entre os joelhos e o quadril levemente dobrado alivia boa parte das pessoas. Quem tem dor por estenose costuma preferir deitar de barriga para cima com as pernas apoiadas sobre travesseiros. Não existe posição terapêutica: a meta é conseguir dormir, porque noite mal dormida aumenta a dor no dia seguinte.
Ciática precisa de cirurgia?
A maioria dos casos não precisa. O ensaio clínico holandês publicado no New England Journal of Medicine em 2007 comparou cirurgia precoce com tratamento conservador prolongado: quem operou melhorou mais rápido, mas ao final de um ano os dois grupos estavam praticamente iguais. A cirurgia ganha peso quando há fraqueza progressiva, sinais de cauda equina ou dor incapacitante que resistiu a semanas de tratamento adequado.
Continue por aqui
- Tema principalDor lombar: causas, sintomas e quando procurar ajudaA maioria das dores lombares vem de sobrecarga e melhora em semanas. Veja as causas, os sinais de alerta e quando o exame de imagem faz sentido.
- Tema principalHérnia de disco: o que é, sintomas e tratamentosHérnia de disco é o material do disco saindo do lugar. Entenda os tipos do laudo, quais dão sintoma, o que reabsorve sozinho e quando a cirurgia entra.
- CondiçãoSíndrome do piriforme: o que é, sintomas e tratamentoSíndrome do piriforme é quando um músculo do glúteo comprime o nervo ciático, imitando a dor de uma hérnia de disco.
- CondiçãoEstenose lombar: o que é, sintomas e tratamentoEstenose lombar é o estreitamento do canal vertebral que comprime nervos e causa dor ao caminhar. Entenda causas e tratamento.
- Termo do laudoEstenose foraminal: o que significa no laudo da ressonânciaEstenose foraminal é o estreitamento do túnel por onde o nervo sai da coluna. Entenda quando esse achado explica dor irradiada e quando não.
Referências
- Low Back Pain and Sciatica in Over 16s: Assessment and Management. NICE Guideline NG59, 2020.
- Diagnosis and treatment of sciatica. The BMJ, 2019.
- Surgery versus Prolonged Conservative Treatment for Sciatica. The New England Journal of Medicine, 2007.
- The probability of spontaneous regression of lumbar herniated disc: a systematic review. Clinical Rehabilitation, 2015.
- Sciatica: review of epidemiological studies and prevalence estimates. Spine, 2008.
- Non-steroidal anti-inflammatory drugs for sciatica. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2016.
- Última revisão
- Revisão editorial
- Equipe editorial Minha Coluna
- Como trabalhamos
- Política editorial
