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Dor lombar: causas, sintomas e quando procurar ajuda

O que causa dor na parte baixa das costas, o que costuma melhorar sozinho e o que pede avaliação sem demora.

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O que é dor lombar

Dor lombar é a dor que aparece na parte baixa das costas, na faixa entre o fim das costelas e a prega dos glúteos. Ela pode surgir de repente, depois de um gesto banal como amarrar o sapato, ou se instalar devagar ao longo de meses até você perceber que já faz tempo que não passa um dia inteiro sem incômodo.

É o sintoma que mais causa incapacidade no mundo. A série sobre dor lombar publicada pelo Lancet em 2018 estimou cerca de 540 milhões de pessoas convivendo com o problema em um mesmo momento, em todos os países estudados, ricos e pobres.

Na consulta, a maioria dos casos recebe o nome de lombalgia inespecífica. Inespecífica não quer dizer imaginária. Quer dizer que não foi possível apontar uma única estrutura como responsável, situação que ocorre em algo entre 85% e 95% dos episódios. E isso é uma notícia melhor do que parece: são justamente esses casos que costumam melhorar bem.

Por que essa região dói com tanta facilidade

A coluna lombar tem cinco vértebras grandes que sustentam quase todo o peso do tronco e ainda precisam permitir que você se dobre, gire e levante coisas do chão. Sustentação e mobilidade puxam para lados opostos, e a lombar resolve isso com um arranjo denso de discos, articulações pequenas nas costas de cada vértebra, ligamentos e muitas camadas de músculo.

Praticamente todas essas estruturas têm terminações nervosas capazes de gerar dor. Disco, faceta articular, ligamento, músculo, cápsula, fáscia. Quando alguma delas é irritada, o sistema nervoso não informa o endereço exato. Ele devolve uma dor difusa, mal localizada, que às vezes espalha para o glúteo ou para a virilha sem que exista nervo comprimido.

Some a isso o fator que mais influencia a intensidade da dor: sono ruim, estresse alto, medo de se movimentar e períodos de sobrecarga emocional aumentam de forma consistente a percepção dolorosa. Não é frescura nem coisa da cabeça. É biologia do sistema de dor.

As causas mais comuns

Sobrecarga mecânica

Levantar peso torcendo o tronco, passar horas na mesma posição, retomar academia com carga alta depois de meses parado, dormir num sofá. A dor costuma aparecer em horas e piorar no dia seguinte, quando a musculatura ao redor entra em espasmo protetor. Esse é o cenário mais frequente e também o de melhor prognóstico.

Disco intervertebral

O disco pode perder água, ganhar fissuras no anel externo ou empurrar material para fora. Quando esse material toca uma raiz nervosa, a dor desce pela perna e vira o quadro conhecido como ciática. Sem contato com o nervo, a alteração discal pode causar apenas dor local ou nenhuma dor.

Articulações facetárias

São as juntas pequenas na parte de trás da coluna. Com o passar dos anos elas desenvolvem artrose, o famoso desgaste. A dor típica piora ao ficar em pé parado, ao estender a coluna para trás e no fim do dia, e alivia ao sentar ou se inclinar para frente.

Estenose do canal lombar

Estreitamento do espaço por onde passam os nervos, mais comum depois dos sessenta anos. O sinal característico é a dor ou o cansaço nas pernas que aparece ao caminhar alguns quarteirões e some quando você senta ou se apoia num carrinho de supermercado.

Causas fora da coluna

Pedra nos rins, infecção urinária, problemas ginecológicos, aneurisma de aorta e doenças inflamatórias como a espondilite anquilosante também produzem dor lombar. Cada uma tem um padrão próprio, e é por isso que a conversa com o médico costuma render mais informação do que qualquer exame.

Como a dor se manifesta

O relato mais comum é de dor em peso ou queimação, que varia conforme a posição. Piora ao levantar da cadeira, ao ficar muito tempo em pé, ao virar na cama. Melhora ao caminhar devagar ou ao deitar de lado com um travesseiro entre os joelhos.

Rigidez matinal de dez ou quinze minutos é banal. Rigidez de mais de meia hora, em pessoa jovem, com dor que melhora ao se exercitar e piora com o repouso, levanta a hipótese de causa inflamatória e merece investigação diferente.

Dor que desce abaixo do joelho, com formigamento ou choque num trajeto bem definido, sugere envolvimento de raiz nervosa. Dor que fica na lombar e no glúteo, sem passar do joelho, geralmente não é nervo comprimido.

Sinais de alerta: quando não dá para esperar

Menos de 1% das dores lombares tem causa grave. Ainda assim, esse 1% precisa ser reconhecido rápido:

  • perda de força progressiva na perna, tropeços, dificuldade para ficar na ponta do pé ou no calcanhar;
  • alteração no controle da urina ou das fezes, retenção urinária, dormência na região que encosta no selim de uma bicicleta;
  • febre associada à dor, sobretudo em quem fez procedimento recente na coluna, usa drogas injetáveis ou tem imunidade baixa;
  • dor forte após queda, acidente ou, em pessoa idosa com osteoporose, após esforço mínimo;
  • perda de peso sem explicação, história prévia de câncer, dor que não alivia em nenhuma posição e acorda você de madrugada.

A combinação de dormência em sela, perda de controle esfincteriano e fraqueza nas duas pernas caracteriza a síndrome da cauda equina. É emergência cirúrgica e o atendimento deve ser no pronto-socorro, no mesmo dia.

Quando o exame de imagem ajuda

Aqui está um dos pontos em que a prática comum e a evidência mais divergem. Tanto o NICE quanto o American College of Physicians recomendam não solicitar imagem de rotina nas primeiras semanas de dor lombar sem sinais de alerta.

O motivo é o que a ressonância mostra em gente sem sintoma nenhum. A revisão publicada no American Journal of Neuroradiology em 2015, com mais de três mil pessoas assintomáticas, encontrou degeneração discal em 37% dos indivíduos de vinte anos e em 96% dos de oitenta. Abaulamento discal apareceu em 30% aos vinte anos e em 84% aos oitenta. Ou seja: encontrar desgaste na imagem é quase o esperado, e não prova que ele seja a origem da sua dor.

Exames precoces sem indicação têm efeito prático conhecido: aumentam a chance de cirurgia, aumentam custos e pioram a percepção que a pessoa tem da própria coluna, sem melhorar a dor. A imagem passa a fazer sentido quando existe déficit neurológico, suspeita de fratura, infecção ou tumor, quando a dor persiste apesar de tratamento adequado, ou quando há decisão cirúrgica em jogo.

O que costuma funcionar

Manter-se em movimento é a orientação com melhor sustentação em todas as diretrizes atuais. Continuar as atividades possíveis, mesmo com alguma dor, encurta o episódio. Trabalhar em ritmo reduzido costuma render mais que ficar de atestado sem necessidade.

O exercício é o tratamento de maior peso. A revisão Cochrane de 2021 sobre exercício para dor lombar crônica encontrou redução consistente de dor e melhora da função em comparação com nenhum tratamento. O tipo importa menos do que a regularidade: pilates, musculação, caminhada e hidroginástica produzem resultados parecidos. O melhor programa é o que você consegue manter por meses. Na fisioterapia, prefira serviços que priorizem exercício orientado e explicação sobre a dor em vez de sessões inteiras de aparelho passivo.

A medicação tem papel de apoio, não de protagonista. Anti-inflamatórios não esteroidais reduzem a dor de forma modesta e aparecem como primeira escolha medicamentosa na maioria das diretrizes, sempre na menor dose e pelo menor tempo possível. Relaxantes musculares podem ajudar em crises com espasmo, ao custo de sonolência. O NICE desaconselha paracetamol isolado, antidepressivos e anticonvulsivantes para dor lombar, e restringe bastante o uso de opioides. Quem decide o que cabe no seu caso, pesando pressão, estômago e rins, é o médico.

Calor local tem evidência razoável na fase aguda, e a bolsa quente sai barato. Manipulação e massagem oferecem alívio de curta duração, com melhor resultado quando combinadas com exercício.

Passados três meses, o tratamento deixa de girar em torno da estrutura da coluna. Entram sono, condicionamento físico, retorno gradual às atividades que você passou a evitar e, quando indicado, terapia cognitivo-comportamental. Programas multidisciplinares mostram os melhores resultados nesse grupo.

O que a evidência mostra que não ajuda

  • Repouso prolongado na cama: a revisão Cochrane comparou repouso com manter-se ativo e o repouso teve desempenho pior, com mais dor e retorno mais lento às atividades.
  • Tração lombar: sem benefício demonstrado, isolada ou associada a outros tratamentos.
  • Cintas e coletes lombares de uso rotineiro: o NICE recomenda explicitamente não oferecê-los para dor lombar.
  • Repetir ressonância a cada crise: a imagem muda pouco ao longo dos anos, e uma nova crise raramente corresponde a uma nova lesão.
  • Cirurgia para dor lombar sem compressão nervosa: a fusão vertebral na lombalgia inespecífica não supera de forma clara um programa bem conduzido de reabilitação.
  • Trocar de colchão por causa da dor: colchões de firmeza média se saem tão bem quanto os duros, e nenhuma superfície trata lombalgia.

No dia a dia

Se a dor te acordou de madrugada e cada movimento na cama dói, vire em bloco, com joelhos dobrados, sem torcer o tronco. Para levantar peso, aproxime o objeto do corpo e dobre os joelhos, mas saiba que a técnica sozinha não previne dor: o volume e a repetição do esforço pesam mais.

Sentar-se não é perigoso. Ficar duas horas seguidas na mesma posição é que incomoda. Levante a cada meia hora, ande até a cozinha, alongue de pé por um minuto.

Fumo, sono curto e sedentarismo aparecem em vários estudos associados a dor lombar mais intensa e mais duradoura. São os alvos com maior retorno em quem tem crises repetidas.

Um dado para guardar: entre 60% e 80% das pessoas terão pelo menos um novo episódio nos doze meses seguintes. Isso é o comportamento normal da dor lombar, não sinal de agravamento. Marque avaliação médica se a crise atual estiver diferente das anteriores, se durar mais de seis semanas sem qualquer melhora ou se aparecer qualquer um dos sinais de alerta listados acima.

Perguntas frequentes

Dor lombar pode ser rim?

Pode, mas o padrão costuma ser diferente. A dor de origem renal geralmente fica mais alta e mais lateral, em cima da cintura, não muda com a posição do corpo e vem acompanhada de febre, ardência para urinar, urina escura ou náusea. Dor que piora ao se curvar, ao levantar da cadeira ou depois de carregar peso aponta muito mais para causa musculoesquelética.

Quanto tempo dura uma crise de dor lombar?

A maior parte dos episódios agudos melhora bastante em até seis semanas, e boa parte já está muito melhor na segunda semana. A dor pode voltar em outros momentos da vida, o que é comum e não significa que algo esteja piorando. Se depois de doze semanas a dor continuar igual, a abordagem muda e vale reavaliar com um médico.

Preciso fazer ressonância da coluna?

Na primeira crise, sem sinais de alerta, quase nunca. A recomendação do NICE e do American College of Physicians é não pedir imagem de rotina nas primeiras semanas, porque o exame raramente muda o tratamento e costuma mostrar desgastes que existem também em pessoas sem dor nenhuma. A ressonância entra quando há déficit neurológico, suspeita de causa grave ou quando se cogita cirurgia.

Repouso na cama ajuda na dor lombar?

Não. Revisões da Cochrane compararam repouso na cama com manter-se ativo e o repouso saiu ligeiramente pior, com mais dor e retorno mais lento às atividades. Um ou dois dias de atividade reduzida na fase mais aguda são compreensíveis, mas ficar deitado por uma semana atrapalha a recuperação.

Dor lombar em quem trabalha sentado tem solução?

Sim, e ela raramente está numa cadeira específica. O que mais pesa é o tempo na mesma posição, então trocar de postura a cada trinta ou quarenta minutos e caminhar um pouco costuma render mais que qualquer ajuste isolado de mobiliário. Somado a isso, atividade física regular fora do expediente é a medida com melhor evidência para reduzir recorrências.

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Referências

  1. Low Back Pain and Sciatica in Over 16s: Assessment and Management. NICE Guideline NG59, 2020.
  2. What low back pain is and why we need to pay attention. The Lancet, Low Back Pain Series, 2018.
  3. Noninvasive Treatments for Acute, Subacute, and Chronic Low Back Pain: A Clinical Practice Guideline. American College of Physicians, Annals of Internal Medicine, 2017.
  4. Systematic Literature Review of Imaging Features of Spinal Degeneration in Asymptomatic Populations. American Journal of Neuroradiology, 2015.
  5. Exercise therapy for chronic low back pain. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2021.
  6. Bed rest for acute low back pain and sciatica. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2004.
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